Nota: 1,8 de 2,0.
Com direito a "Muito bom!" ÊÊÊÊ :P
Obs: Não que seja extenso, mas sei que nesse universo virtual, muitos tem "preguiça" de ler. Portanto, boa leitura aos que se aventurarem e ao restante, pode escolher abaixo poesias curtas ou clica num link qualquer sem a necessidade de dizer "muito legal o seu blog, passa lá no meu"
:D

Rapunzel (contado pelo pai)
Eu me tornei um homem cansado. Passava horas trabalhando para conservar a fazenda que herdei de meu pai. Consegui algum sucesso, o terreno maltratado agora tinha plantações e também alguns animais. Até gostava do pai, mas tinha que dizer que não me orgulhava dele. Não foi uma figura a quem pudesse admirar ou seguir como exemplo. Não pretendia ser assim para meus filhos.
Minha esposa estava grávida e a criança deveria nascer em pouco tempo. Não tínhamos feito nada que os médicos da cidade aconselhavam. Tudo o que fizeram foi uma série de consultas para saber se estava tudo bem tanto com a criança quanto com minha mulher. Felizmente, nenhum problema ocorreu durante a gestação. Podia dizer esse felizmente com muito prazer tanto por torcer pela saúde do bebê e da esposa quanto por agradecer por não ter que gastar com medicamentos ou com mais médicos. O dinheiro estava curto e precisávamos economizar para manter a criança depois de nascida. Seria mais uma boca para alimentar.
Depois de uma tarde de muito trabalho, andava suado pela fazenda cumprimentando os poucos empregados que tinha. Os homens guardavam os animais e voltavam para casa com as enxadas nas costas e eu só desejava tomar um banho e ver como minha esposa estava. Era sempre bom estar com elas depois daqueles dias duros. Dei-lhe um beijo no rosto assim que abriu a porta e depois acariciei a barriga grande. Fui para o banho e na volta já encontrei um café simples, mas caprichoso. Comemos sorrindo e conversando, falando do futuro do bebê. Sabíamos que seria uma menina. Estava feliz por ter uma princesinha de quem cuidar, mas tinha que reconhecer que ainda queria um homem que pudesse assumir a fazenda e torná-la a melhor e maior da região. Claro que nos tempos de hoje nem precisava me preocupar tanto com isso. Mulheres também eram ótimas nos negócios. Era só aquele orgulho masculino de passar adiante o que fizera para um filho, um homem que cuidasse de tudo com mãos de ferro.
“Estou com desejos” disse minha esposa, interrompendo meus pensamentos. Ela sabia o que estava pensando e não pretendia discutir novamente a possibilidade de outro bebê e a pressão de que fosse um menino. “Desejos?” disse, com a boca um pouco cheia. Estava mordendo um pão e apenas olhei com aquela curiosidade de quem vai se arrepender de ter perguntado. “Quero um punhado de rapunzel do pomar da Bruxa” disse ela. Olhei para o lado instantaneamente. Vi pela janela a fazenda que fazia divisa com a nossa. Era lá que morava a mulher que chamavam de Bruxa. Ela enriquecera rapidamente após a morte do marido. Casou com ele, saindo da pobreza, e tornou-se viúva menos de um ano depois. Dentro de poucos anos comprou várias fazendas em volta com um dinheiro que ninguém sabia de onde vinha. “Era pacto com o diabo” diziam os fazendeiros menores, invejosos e aterrorizados com aquela mulher que não parava de enriquecer.
“Preciso daquele Rapunzel. São tão grandes e bonitos” disse minha esposa. “Dá para querer outra coisa, não?” perguntei sem esperança. “Ah, não, meu bem. Por favor. Não vai querer que nossa filha nasça...” “Pode deixar...” disse, limpando a boca com um guardanapo como a esposa sempre insistia que fizesse. Não tinha dinheiro para comprar aquele Rapunzel e sabia que adquiri-los da Bruxa seria o mesmo que me tornar inimigo de todos os outros fazendeiros. Diziam que ela exportava tudo o que produzia naquele pomar. Apenas itens da melhor qualidade. Passei a noite olhando pela janela enquanto a esposa assistia às novelas na televisão. Já era tarde quando decidi sair de casa, pular o muro e andar pelos pomares da Bruxa. Caminhei até encontrar as verduras que queria. O coração batia em desespero. Estava pálido de medo e fiquei parado na porta para me recompor. Não queria demonstrar aquela covardia. Minha esposa, com certeza, comentaria com as outras mulheres e eu seria chacota em poucos dias. O sorriso da mulher valeu todo o esforço. Roubei Rapunzel durante quase uma semana, nunca me acostumando com o medo.
Então, aconteceu a grande desgraça. Estava saltando a cerca, quando toquei o chão e ergui a cabeça, estava diante da Bruxa. Ela usava um vestido negro, daqueles de mulher séria da sociedade. Tinha os cabelos amarrados em um coque e enfeitava os lábios com um batom vermelho. A luz de um poste que iluminava o quintal gerava uma penumbra que impedia enxergar os olhos frios e azuis que davam tanto medo. “Então, você é o ladrão?” perguntou a Bruxa. Não conseguia responder de tanto pavor. Ela se adiantou com o rosto contorcido de raiva. “Responda-me!” exigiu, tocando-me o pescoço e aproximando a face. Agora os olhos de gele estavam expostos e gelaram minha alma. Era linda em seus pouco mais de trinta anos.
Foi com uma força fenomenal que me jogou no chão. Cai junto com o Rapunzel e uma braço arrastou-se pelo arame farpado. Gritei e tentei desvencilhar por impulso, apenas rasgando ainda mais músculos e pele. Levantei ainda assustado e vi minha esposa saindo de casa. Ela correu para saber o que estava acontecendo. “Esposa? Grávida?” resmungou a Bruxa. Minha mulher aproximou-se e me abraçou. “Ladrões!” acusou. Aproximou-se de nós e uma aura de medo fez três corações gelarem, dois adultos e um de uma criança que nem sabia o que acontecia. “Vão pagar pelo roubo. Podiam ter cedido tudo o que tem a mim e serem meus, assim comeriam de meu Rapunzel e serviriam a quem eu sirvo. Vocês negaram e agora me roubam? O que faço? Amaldiçôo-os?” gritava furiosa a Bruxa. “Não, por favor!” pediu minha esposa. A Bruxa riu e a puxou. Tocou-lhe a barriga e aproximou-se do ouvido dela. Sussurrou bem baixo “Uma menina... Nada melhor que isso. É o que vão pagar por entrar no que é meu.” Era um absurdo, mas não sabíamos como rebater. No entanto, quando visitei o pomar maldito, sabia que me condenara. Aquilo era tudo do diabo e livrar-se daquela maldição exigiria um preço. “Fique com ela!” disse. Minha mulher chorou de agonia e de raiva sem saber o que fazer. Mesmo com a criança em seu ventre, sentia que não seria mais dona de nada. E se não a entregasse, nem seria dona de sua própria alma.
Um mês depois a Bruxa voltou para pegar seu prêmio. Encontrou apenas fragmentos do que um dia foi um casal. Nossa felicidade foi embora e o que havia agora eram dois nadas parados diante de um berço em que uma linda menina chorava. A Bruxa mal nos olhou. Nem lhe demos atenção. Sentimos um peso se esvair do ombro enquanto a mulher maligna saía com o bebê nos braços. A menina seria criada com luxo e educada para ser uma princesa.
Os dias passavam tristes. Não tínhamos mais esperança no futuro. A Bruxa arrancou nossa filha e todos nossos planos de vida. Não teria para quem passar minha fazenda. Não sei se por alguma complicação no parto ou por termos invadido o espaço do demo, mas minha esposa nunca mais engravidou e nunca mais tivemos notícias de nossa princesinha roubada. Os anos se passaram com a mesma atmosfera de dor. “Por que a morte está demorando tanto para nos levar?” perguntava isso constantemente.
Foi quando alguém bateu em nossa porta. Nos olhamos assuntados, afinal nunca mais recebemos visitas. Os vizinhos acreditavam agora que éramos amaldiçoados pelo demônio. Minha esposa, receosa, foi quem atendeu. Era um casal de jovens que estavam acompanhados de seus dois filhos lindos, um menino e uma menina. “Pois não?” questionou minha mulher. A moça, com água nos olhos, perguntou “Mamãe?” Ao escutar aquilo, corri para porta. “Que tipo de brincadeira é essa?” falei um pouco alterado. “Não é brincadeira, pai. E sim uma longa história que lhe contarei com detalhes e calma. Porém, o sofrimento passado já não mais me importa e desejo esquecê-los. O que importa agora é que escapei das garras daquela Bruxa, tenho um marido que mais parece um príncipe de tão belo, dois filhos lindos e voltei para vocês. Papai! Mamãe!” Durante muito tempo ficamos nos abraçando e chorando. “Que alegria! Que alegria!” exclamava!
De uma hora para outra nossas vidas voltarem a fazer sentido! Minha filha me contou os detalhes de sua historia. E ela tinha razão. Não importa! Tínhamos sofrido demais durante grande parte de nossas vidas e agora já não mais valia a pena perder tempo com tristeza. Finalmente éramos felizes e estávamos juntos! E isso sim importa! O resto? O resto é apenas historinhas para ninar uma criança...






















6 comentários:
É como voce mesmo disse, aos poucos que leem textos grandes como esse, que sabem como é bom maravilhoso ler.
Gostei do final. não sei, é como se fosse algo que já passei ou sinto que vou passar. reencontrar a felicidade, não que eu nao seja feliz, mais a felicidade que vale a pena ser vivida.
Tem algo de errado com essa Rapunzel..
Primeiro: depois que o príncipe salvou a pobrezinha, a maldição acabou.. certo?
Então...
Ela reapareceu pros pais depois de casada e com 2 filhos?
Pq ela não os convido pro casamento? Ou melhor, se ela amasse tanto os pais, ela pediria pro amado pra levar ela pra ver os pais.
Tudo bem que eles não tinham vínculo, pq ela foi arrancada da “placenta”, porém, entretanto, todavia, contudo, ela sabia que havia sido vitima de uma maldição.
Quem são as pessoas que mais nos amam nesse mundo?
Nosso príncipe encantado?
Não queridos, não!
Nossos pais! E essa mal agradecida deveria ter ficado mais 50 anos amaldiçoada só pra deixar de ser besta.
Desculpa estar falando tanto do seu texto, está ótimo... mas até na ficção os filhos são mal agradecidos...
Agora quando a princesinha for trocada pela princesa mais gostosinha, e ficar na sargeta e com duas crianças melequentas, ela vai olhar o álbum de fotos do casamento falido e vai ver que as pessoas mais importantes da vida dela não estavam ali participando de um momento feliz da vida dela.
Sei lá, se eu fosse o pai dela mandava ela catar “rapunzéis” (Leandro Kerr: não faço idéia do que seja isso), mas como ele é PAI, ele vai acolher essa princesa de meia tigela.
Valeu pela visita!Então vou adicionar o link do seu blog no meu!!Bjs!
maneiro o texto! xD
mas ainda prefiro o ultimo da chapeuzinho vermelho! ^^
parabens... continua com o blog
eu curto mtaum! xD
http://popundergroundofgod.blogspot.com/
Texto bom.
Seguindo aquele esquema de que
todos foram felizes para sempre,
mas e os servos? os trabalhadores que se exaustam da cansativa sina da agricultura e continuam pobres.
É uma visão bem diferente, mas a felicidade de todos não existe.
E é por isso que gostei dessa história, justamente por não ser
infantil.
kkkk!!! adorei o texto, mas eu sabia que ele roubava rabanetes e que rapunzel era o nome da filha do casal... mas é verdade essa menina demorou muito pra ir ver os pais, mas tb os pais deixaram ela ir assim sem mais nem menos??? já tinha televisao e ainda nao tinha polícia na época nao é??? rsrsrsrs
viajei !!!!
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